Mãe, que mulher você é ?

Os vestidos de chita abarrotam o armário e empobrecem o corpo que ela não reconhece mais como seu. Cabelos escalpelados, corte padrão: Marca de uma praticidade que se diz necessária para uma nova empreitada. Decotes cheiram a leite e o peito avantajado parece caber somente nos sutiãs padronizados, com aquela janela bege de fácil acesso. Olhos e cremes perdem a validade e o cheiro de bebê está também no sabonete… Glicerina cara, muito cara. Esmalte escuro vira sinônimo de sacrilégio. E a voz imponente das avós passam a assombrar a mulher anteriormente independente. Serviçal do Rei, a moça já não tem nome. Mãe é sua nova identidade ! 


Madrugadas ininterruptas em claro regidas pela angústia de assistir o filho que dorme picotado. Lá vem as olheiras e as camisolas sem transparência. Ignorante, segue o (mesmo) caminho de todas, perdendo sua autonomia num mundo plural. Sexualidade interditada pelo novo papel imaculado. Nasce com Bernardo, Igor, Joana, Valentina mais uma Maria, casta sofrida, “virgem”, coberta, invisível, sem tempo, sem hora para o almoço frio. Amor incondicional imposto, abnegação sofrida , lá vem mais uma Maria. Esforço prometido quando nem era nascida.

Abre-se um hiato na sua história, um vale extenso entre Lúcia, Claudia, Valéria, Rosana e a Mãe de uma guria.

Mas, quem foi que disse que não há alforria ? Na gaveta tem espaço para a lycra. cavada, o consolo que vibra, o óleo que acende os sentidos adormecidos por verdades históricas, culturais e religiosas que só atrapalham. Corre ! Corre e recuse tamanha imposição sofrida ! A boca vermelha escandalizará da mesma forma que o seio agora envolto na lingerie devassa não deixará teu filho faminto.

Teu corpo precisa, ah se precisa ! Da liberdade de novo, do sexo intenso, das costas de fora, do biquíni, das cores, do salto, risadas e conversas adultas. Da energia quente do beijo demorado no teu par venerado. Teu filho precisa de espaço, de sentir tua falta, de te ver inteira, nem tanto guerreira.

Precisa, precisa mesmo é te ver humana. Crescer contigo, experimentar abrigo e respeitar teu jeito, escolhas e vaidade. E se te perguntarem de novo, Mãe de quem você é, responda com voz alta teu nome e não te demores, coagida pelos olhares reprovadores, diante da mulher que insiste em existir, no exercício contínuo e único que é ser Mãe: Cansada, feliz, irritada, assertiva, confusa, dona de um par de peitos que nutre e desperta desejos.


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